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Torcedores do Cruzeiro expulsam Wagner Pires de bar e intimidam conselheiro

Ex-presidente foi obrigado a deixar um bar em Lourdes, na região Centro-Sul da capital mineira, após ser reconhecido e xingado

Wagner Pires de Sá, ex-presidente do Cruzeiro, deixou bar após ser xingado e intimidado por torcedores do clube
foto: ReproduçãoWagner Pires de Sá, ex-presidente do Cruzeiro, deixou bar após ser xingado e intimidado por torcedores do clube

Ex-presidente do Cruzeiro e um dos responsáveis pela crise que se instalou no clube desde 2019, ano do rebaixamento à Série B, Wagner Pires de Sá voltou a ser alvo de ataques verbais e intimidações de torcedores nas ruas de Belo Horizonte. Nesta sexta-feira (1), o ex-dirigente foi obrigado a deixar um bar em Lourdes, na região Centro-Sul da capital mineira, após ser reconhecido e xingado. Ele estava acompanhado de sua esposa, Fernanda São José, e do advogado Sérgio Murilo Braga, conselheiro do Cruzeiro.

Torcedores do Cruzeiro expulsam Wagner Pires de bar e pressionam conselheiro Sérgio Murilo Braga

Pelo fato de Wagner ter saído às pressas do bar, um torcedor ironizou enquanto o gravava. “Ô Wagner, esquece não. Você tem que pagar. Você não pagou nem o Cruzeiro. Tem que pagar aqui, irmão. Tem que pagar aqui. Vem pagar a conta aqui irmão“.
Em um dos vídeos que circulam nos aplicativos de mensagens, a esposa de Wagner afirma que foi agredida por um dos torcedores. Fernanda São José ainda reclamou por ser filmada enquanto estava em um momento de lazer.
Pires de Sá teve o posto de conselheiro benemérito cassado por seus pares em reunião extraordinária no Parque Esportivo do Barro Preto em 7 de fevereiro deste ano.

Conselheiro é constrangido

No mesmo estabelecimento, os torcedores do Cruzeiro intimidaram o advogado Sérgio Murilo Braga por ter cobrado documentos relativos à venda de 90% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) a Ronaldo durante reunião de explanação do projeto, ocorrida na quinta-feira (31), no Barro Preto.
O evento foi transmitido pelo Cruzeiro em seu canal oficial no Youtube.
Durante apresentação feita pelo estafe de Ronaldo ao Conselho Deliberativo, Sérgio Murilo Braga cobrou esclarecimentos e documentos que comprovassem que a Tara Sports, empresa interessada na compra do Cruzeiro, pertencia mesmo a Ronaldo. Ele ainda exigiu uma auditoria.
Em outro ponto, Sérgio pediu acesso ao contrato de venda. “Quando se exige votação do conselho, é porque o conselho, no nosso Estatuto, está acima da nossa própria diretoria. Todos devem saber disso. Por isso o Conselho, muitas vezes, tem que ajustar e confirmar um ato. Não basta falar que tem confidencialidade quando o Conselho é que vai deliberar exatamente qual a solução da matéria. Não temos condições de deliberar sobre a matéria na segunda-feira, antes que os 400 conselheiros tenham acesso à integralidade dos contratos. É a minha opinião. O conselheiro não pode aprovar algo que ele não conhece”, disse.
Já no fim do encontro, Sérgio Murilo Braga mudou de ideia e afirmou que votaria a favor da operação no dia 4 de abril. Nessa data, o Conselho Deliberativo se reunirá para aprovar ou reprovar a venda da SAF a Ronaldo.
Ao ser abordado no bar, Sérgio Murilo foi cobrado por um dos torcedores. “Você estava querendo votar contra (a venda da SAF para Ronaldo)? Eu tava vendo a live, fio“. O advogado respondeu: “Eu votei a favor ontem”. O torcedor, então, o retrucou: “É obrigação sua, irmão. Obrigação! Vocês têm que sumir do Cruzeiro, vocês  são uns bostas“.

Histórico de Wagner no Cruzeiro

Conselheiros beneméritos, natos e efetivos tomaram a decisão de cassar Wagner Pires de Sá em placar dilatado em 7 de fevereiro: 113 votaram pela expulsão, enquanto apenas 20 foram contrários à medida. Houve também dois votos nulos e um voto em branco. A Mesa Diretora do Conselho Deliberativo usou como justificativa para o quórum relativamente baixo a alta de casos de COVID-19, com a disseminação da variante ômicron. 
Os conselheiros votaram a cassação com base em 13 denúncias contra Wagner aceitas pelo Comitê de Ética e Disciplina do Conselho Deliberativo. Uma das principais é a utilização do cartão corporativo do Cruzeiro pelo ex-dirigente para gastos pessoais entre 2018 e 2019 – revelada em série de reportagens do Superesportes em abril de 2020.
Eleito em outubro de 2017 com apoio do então presidente Gilvan de Pinho Tavares, o economista Wagner Pires de Sá pregou o discurso de que faria “engenharia financeira” para equilibrar as finanças celestes. No entanto, antes mesmo da posse, em janeiro de 2018, tornou-se figura decorativa na gestão do Cruzeiro ao delegar suas atribuições a dois homens de confiança: Itair Machado e Sérgio Nonato. Politicamente, Wagner se afastou de Gilvan também antes da posse e, com distribuição de cargos remunerados – o que é vedado pelo Estatuto -, fortaleceu um outro grupo de apoio dentro do Conselho Deliberativo: a famosa Família União.

Fracasso em campoNo primeiro ano da gestão de Wagner, o Cruzeiro venceu, com o elenco montado  por Gilvan, o Campeonato Mineiro e a Copa do Brasil – tendo faturado premiação recorde de R$ 61,9 milhões pela segunda conquista.  Em 2019, o clube celeste ganhou o bi consecutivo do estadual, novamente em cima do rival Atlético, e fez boa campanha na fase de grupos da Copa Libertadores – líder isolado do Grupo B, com 15 pontos. O ‘mar de rosas’ se transformou em ‘coroa de espinhos’ a partir do momento em que o mandato de Wagner Pires virou assunto nas páginas policiais. No dia 26 de maio, o programa Fantástico, da TV Globo, tornou pública a investigação da Polícia Civil contra a diretoria cruzeirense por suspeitas de lavagem de dinheiro, falsificação de documentos e falsidade ideológica.

O caos político e administrativo refletiu no futebol. Depois de ser eliminado para River Plate, nas oitavas de final da Copa Libertadores, e Internacional, pela semifinal da Copa do Brasil, o Cruzeiro fez campanha muito ruim no Campeonato Brasileiro – a pior de sua história na era dos pontos corridos – e caiu para a Série B em 17º lugar, com 36 pontos em 38 rodadas.
A falta de planejamento ao longo da competição acelerou o rebaixamento inédito à Segunda Divisão. Substituto de Mano Menezes, Rogério Ceni durou apenas oito jogos como técnico, enquanto Abel Braga, que entrou no lugar do ex-goleiro, contabilizou 14 partidas. Adilson Batista não conseguiu cumprir a missão de ‘salvador da pátria’ nas três rodadas finais. Descontrole financeiro O prometido ‘equilíbrio financeiro’ nunca foi visto durante a gestão de Wagner Pires de Sá. Em 2019, ano do rebaixamento, o clube ficou com três meses de salários atrasados, além de oito meses de direitos de imagem pendentes com os jogadores.  Os atrasos geraram uma debandada no elenco ao fim da temporada. Ativos do clube, como o zagueiro Fabrício Bruno, o volante Éderson e o atacante David, hoje negociados por milhões de reais no mercado da bola, deixaram a Toca da Raposa II de graça após vitórias em disputas judiciais.

Inicialmente, a dívida geral subiu de R$ 386 milhões, no último ano da presidência de Gilvan (2017), para R$ 520 milhões, na primeira temporada de Pires de Sá (2018). Já o balanço de 2019, de acordo avaliação da Pluri Consultoria, foi o pior já apresentado por um clube na história do futebol brasileiro.
O déficit de 2019, último ano da gestão Wagner, foi de R$ 394 mil – prejuízo superior a R$ 1 milhão por dia. Hoje, a dívida total do Cruzeiro é estimada em cerca R$ 1 bilhão. Réu na Justiça Em agosto de 2020, a Polícia Civil concluiu investigação de possíveis crimes praticados por Wagner Pires de Sá e seus diretores. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que ofereceu denúncia em novembro daquele ano. Ao lado de Itair Machado, Sérgio Nonato, Fabrício Visacro e outros quatro empresários, Pires de Sá se tornou réu por quatro crimes:  lavagem de dinheiro, apropriação indébita, falsidade ideológica e organização criminosa. Segundo o MPMG, o rombo nos cofres do clube na gestão de 2018/2019 foi estimado em R$ 6,5 milhões.


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