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Em BH, compra com R$ 100 que preenchia carrinho agora cabe em cestinha

Reportagem mostra diferença entre compras com R$ 100 entre 2022 e o ano passado em supermercado da capital mineira

A inflação além dos números. O que comprávamos há um ano nos supermercados e o que adquirimos hoje? A reportagem de O TEMPO foi até um estabelecimento do tipo na Região Leste de BH para responder a esse questionamento na prática. Com R$ 100, a aquisição de um ano atrás caberia no tradicional carrinho. Já a de hoje em dia, bem mais modesta, consegue ser feita completamente no cesto – uma diferença significativa puxada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado de 12,03% nos últimos 12 meses.

No ano passado, o morador de BH conseguia comprar os seguintes itens com R$ 100: um pacote de arroz, um de açúcar, um de café, um de feijão, dois litros de leite, duas garrafas de óleo de soja e duas bandejas de bife de boi.

Hoje em dia, o consumidor é obrigado a cortar um litro de leite e um óleo da lista. A proteína também muda: sai a bovina e entra o frango. Mesmo assim, o orçamento só dá conta de uma bandeja, em vez de duas. 

O advogado Rodrigo Alerrandro, de 41 anos, sente o impacto da inflação a cada ida ao supermercado.

“Tivemos um aumento muito grande, descontrolado. O milho é mais caro que o frango, sendo que o milho que alimenta o frango. Isso tem impactado principalmente a vida do mais humilde, que vive com um salário apertado e tem que pagar não só os alimentos, mas os produtos de higiene, de limpeza. Tem sido muito complicado”, diz. 

O profissional do direito pede mais regulação nos preços. Para ele, o governo precisava subsidiar com políticas públicas a compra de supermercado.

“Sinto falta da antiga Sunab (Superintendência Nacional de Abastecimento, extinta em 1997 pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e responsável pela regulação do mercado). Infelizmente, nesse contexto atual, o mais pobre vê a insegurança alimentar aumentar. Ele troca uma fruta, uma verdura, por um biscoito recheado, um miojo”, afirma

A comerciante Maria Amélia Lopes percebeu um aumento nos custos do seu negócio e também na hora de preencher a dispensa.

“Não importa o produto, tudo aumentou, desde o mais básico da cesta até o mais sofisticado. A carne de boi sumiu do prato de qualquer classe social. Só frango, porco e ovo. De vez em quando, eu compro um acém para variar um pouquinho. Alcatra nem pensar”, diz. 

Do ponto de vista da análise, a professora de economia da UNA Vaníria Ferrari diz que o reajuste frequente dos alimentos acontece por conta de uma série de fatores, que costumam pesar, sobretudo, nos itens da cozinha.

“Está encarecendo por conta do preço de custo de produção, em função da safra agrícola, do aumento do dólar e dos insumos que são matérias-primas, como os fertilizantes e outros. Além do combustível e da energia elétrica, que fazem parte do processo”, afirma. 

Números do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostram que a cesta básica sofreu um aumento de 20,48% nos últimos 12 meses em Belo Horizonte, portanto acima da inflação de 12,03%, diante dos pontos sustentados pela economista Vaníria Ferrari. Para os mais pobres, esse fardo fica ainda mais pesado.

“O salário mínimo é definido no início do ano. Acontece que de janeiro até abril, nós tivemos um processo inflacionário, que não foi acompanhado pelo salário. Isso vai acarretar em uma perda de poder aquisitivo. Quanto menor a renda, mais ela é impactada”, diz a professora. 

Recentemente, o mercado financeiro elevou a projeção da taxa básica de juros ao fim do ano para 13,25%. Atualmente em 11,75% ao ano, a Selic é uma das armas do Banco Central para controlar a inflação, a partir da redução do consumo. A instituição já estima uma nova elevação de um ponto, para 12,75%.

Mesmo com os esforços, a professora Vaníria Ferrari acha que dificilmente teremos um controle da inflação nos próximos meses. “No curto prazo, digo nos próximos quatro meses, não vejo a inflação perdendo fôlego. A notícia boa é que dólar segurou um pouco, mas isso não é suficiente. Já tivemos um novo reajuste do gás de cozinha, que é outro item básico para a população”, afirma. 

Principal combustível para cozinhar, o gás liquefeito de petróleo (GLP) sofreu novo aumento da Petrobras na semana passada. A estatal elevou o preço para as distribuidoras em 19%. Levantamento do Observatório Social da Petrobras mostra que o preço do GLP representa quase 10% do salário mínimo de R$ 1.212, a maior fatia desde 2007.

Café puxa a fila

Entre os produtos incluídos no comparativo proposto pela reportagem de O TEMPO, o que mais sofreu com a inflação foi o café moído, conforme a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Fundação Ipead/UFMG).

O item teve seu preço reajustado em 73,7% no recorte entre março do ano passado e março deste ano. 

Na sequência, aparecem o óleo de soja e o açúcar cristal. Os itens sofreram aumentos de 37,87% e de 36,38%, respectivamente, no período pesquisado.

Não presentes no levantamento da reportagem, o tomate Santa Cruz e a batata inglesa também tiveram aumentos substanciais. No caso do fruto com sementes, o preço mais que dobrou: variação de 131,92%. Já o tubérculo teve sua cotação elevada em 49,39%. 

O único produto da cesta que sofreu deflação foi o arroz. O preço do grão diminuiu 8,64% entre março do ano passado e o terceiro mês de 2022.

Outro reajuste aquém da inflação foi do feijão carioquinha, que teve aumento de 6,98% no período.

Por GABRIEL RONAN

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